Heteronímia

"Pensar incomoda como andar à chuva." – Alberto Caeiro

Olá, amigos.

Hoje tento algo diferente: uma espécie de “micro-conto”. Nada ambicioso, nada espetacular – mas muito significativo, na minha opinião, ao menos.

Espero que gostem. :)

Abs!


Mãe, vem cá. É rapidinho. Explica uma coisa?

Onde está o Sol? Onde está a manhã quente que nos conforta e nos traz tranqüilidade? Onde está o céu azul?

Eu não gosto de chuva, mãe. Quer dizer, até gosto, mas não dessa chuva com raios e trovões. Essa chuva que me lembra de quando eu era pequeno e corria pra debaixo das cobertas – às vezes pra debaixo da cama -,  com medo; que me lembra de quando corria pra debaixo do seus braços só pra sentir calor, aconchego, paz – como os do Sol.

Mas você me ensinou que a chuva mingua e para, não é, mãe? E ensinou, também, que se ela não parar por completo os raios e trovões param. “Ahhh, esses param”, dizia você! E logo o Sol aparece de novo. Logo seus raios dourados, ainda que entre nuvens, vêm acariciar nossos rostos e desenhar sorrisos.

A tempestade sempre passa. Isso, mãe, eu aprendi.

Poemas de gaveta

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Fuçando nas coisas da faculdade, achei um poema que eu escrevi àquela época. Ele é interessante de certa maneira. Não é lá grandes coisas, mas, é honesto, rs… Nunca fui um bom poeta, porém às vezes sai uma coisa ou outra bacana – que pelo menos eu acho bacana, hehehe.

O impacto sintático
Jaz, pútrido, esquecido
Sob a égide imagética
Do Poema
Do Poeta

Alexandre Flávio – 18/02/2006

É isso. Abraços.

Shining On

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Wish You Were Here

Wish You Were Here

Toda vez que eu ouço Shine On You Crazy Diamond, do Pink Floyd, tenho uma súbita vontade de chorar. O nó na garganta, as voltas no estômago, o arrepio na espinha. E não é porque eu lembre de coisas tristes – ou não somente tristes; essa música simplesmente faz minha cabeça girar numa velocidade absurda. Lembro de tantos momentos, de tantos rostos, de tantas coisas que parece que eu vou ficar (mais) maluco.

Sempre me impressiono com o poder de comoção e de atração que o Pink Floyd exerce sobre mim, sobretudo nessa música, em Time (Dark Side of The Moon, 1973) e em Wish You Were Here (Wish You Were Here, 1975). E, como já disse uma vez, talvez só quando tiver meus 50, 60 anos de idade entenderei porque isso acontece, o porquê do Dark Side of The Moon, por exemplo, praticamente me tirar do meu corpo.

Shine On, embora não verbalmente afirmado, foi composta em homenagem a Syd Barret (1946-2006), membro fundador do Pink Floyd, insano e um músico espetacular. A idéia é que fosse um álbum conceitual só com este som, mas, no final, Shine acabou entrando no disco Wish You Were Here, metade no começo do álbum e metade no fim.

A música é espetacular. As alternâncias de “humor” na música são constantes e de uma genialidade (quem me conhece sabe que eu não uso esse termo pra qualquer coisa que nem essa molecada de YouTube) impressionante. A introdução é algo que arrepia até quem não gosta desse tipo de música. Minha banda tocou a música nos últimos 2 shows e, acreditem, a experiência de se tocar Shine On You Crazy Diamond num palco é sem igual. Sério.

Syd Barret

Syd Barret

Sem, obviamente, desmerecer os outros membros do Floyd, Gilmour e Waters são, certamente, uma das mais importantes e profícuas parcerias da história da música. Waters sozinho é muito legal; Gilmour sozinho é muito legal; os 2 juntos é o mais próximo da perfeição que eu já encontrei.

Se você não conhece Floyd, dê uma chance. Comece ouvindo Wish You Were Here, Time, Another Brick in The Wall, Mother… você não vai se arrepender.

Abraços!

Nascer do Sol2010 não me deixará muitas boas lembranças, não.

Uma coisa ou outra até valeu a pena neste ano que uns amigos apelidaram de “o ano em stand by” – e é bem nessa mesmo. Minha vida foi mais torcida do que roupa numa dessas secadoras americanas, sabe? Acho que nunca havia me sentido tão estagnado e, ao mesmo tempo, tendo que tomar decisões que mudariam completamente o curso da minha vida.

Não, não vou ficar me lamuriando por aqui mas, como tentativa de voltar a este espaço que tanto me ajudou muitas vezes sendo um “desabafo” eletrônico, acho justo dizer algumas palavras.

Eu esperava demais de 2010 e, talvez, isso tenha atrapalhado. É fato que eu também contribui um pouco para esse tal ano estagnado, ou citando outra pessoa (Peter, meu diretor) “o ano que não houve”, com a falta de definições de focos, metas e objetivos; até certo ponto acho que acreditei que as coisas se resolveriam sozinhas. O problema é que agora eu espero muito de 2011 também, hahaha. É claro que vale mencionar que caminho em direção a 2011 com uma lista de metas, de objetivos, de coisas que quero conquistar extremamente clara – e isso eu não fazia há muito.

Muita coisa vem mudando na minha vida e tenho certeza que ainda muito mudará, mas uma vez que eu consigo começar a definir qual será meu Norte tudo, aparentemente, fica bem mais fácil! Um dos objetivos, aliás, é voltar a dar a devida importância que este humilde blogue merece… e espero vê-los comentando por aqui, hein? :)

Portanto, amigos, desejo a vocês um excelente 2011. Que todos consigam alcançar os objetivos que estão buscando e superar todas as barreiras que apareçam por aí.

Um abraço carinhoso a todos vocês e nos vemos em 2011!

Alê

O blog volta à ativa esse final de semana – defini e preciso que isso aconteça. Até lá, mais um texto de Caeiro, que acho que exprime com maestria o momento atual deste humilde escritor.

Um abraço.

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

(Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos)

I am about to write something I never imagined I’d ever write:

After 25 years, I have decided to leave Dream Theater….the band I founded, led and truly loved for a quarter of a century.

To many people this will come as a complete shock, and will also likely be misunderstood by some, but please believe me that it is not a hasty decision…it is something I have struggled with for the last year or so….

Esse é o começo do texto que o Mike Portnoy, ex-baterista do Dream Theater, escreveu ontem em seu fórum. Irônico, mas acho que não tinha tema melhor pra eu voltar a escrever algo aqui.

O Dream Theater é, tranqüilamente, a banda que me definiu musicalmente. É óbvio que muita coisa me influencia , mas é inegável que o DT é a principal influência. Por pouco mais de 10 anos acompanho de perto absolutamente tudo o que os caras fazem, pois, além de curtir o som, agrega demais ao meu aprendizado musical técnico.

De repente um dos pilares e idealizadores dessa (vou abusar aqui) releitura do Rock Progressivo – ou alguém discorda que o DT contribuiu com a criação de uma vertente ao estilo?  – diz que está deixando a banda que ele fundou, de quem é “dono”, pra quem escreve um porrilhão de letras etc… complicado, não? Depende. Explico.

Na minha mais do que modesta opinião a perda do Dream Theater é mais emblemática, se me permitem, do que técnica. Bateristas sensacionais existem aos montes, não tenham dúvidas, mas a banda deixa de ter sua principal engrenagem “em constante movimento” (como definido por ele mesmo, no DVD da edição especial do álbum Systematic Chaos).  Lembrem-se que o Portnoy era o baterista, acompanhava toda a produção dos álbuns, pensava nos setlists, pensava nas aberturas de shows. A banda colaborava? Claro, mas numa proporção de 10%, chuto eu.

Além disso, todos sabemos que o outro “dono” da banda, o Petrucci – indiscutivelmente minha maior influência guitarrística -, não é um poço de simpatia. Apesar de a  letra de Never Enough ter sido escrita pelo MP, sabemos a relação sincera e próxima que nosso querido “octopus” tentava manter junto aos fãs. Fãs estes que são xiitas. Sim. Xiitas, fanáticos, intolerantes (generalizo mesmo, porque já fui em pelo menos 4 shows dos caras e já vi de tudo, até caras de costas pro palco em música mais nova – e não eram poucos nem exclusividade do Brasil). Como eles vão encarar o “novo cara”?

Numa análise extremamente tendenciosa e precipitada, assumo, penso que o Dream Theater perde um pouco da sua identidade, sacam? Parte do que define a banda, parte da marca registrada. Que o novo baterista será capaz de substiuir o Mike para o que já foi feito, não tenho dúvidas – músicas são “tiráveis”. Porém, criará ele à altura do que exige o público xiita (sarcasm implied, for God’s sake)? Aguentará ele a pressão de ter que ser o substituto de um incansável-maníaco-por-música por trás da bateria? Acreditem: não é tão simples assim.

Boa sorte ao DT, e ao MP.

VazioE cá estamos mais uma vez, no vácuo dos textos. Quero escrever, sei disso, mas por algum motivo não sai nada aproveitável! Cobro-me demais. Não quero que meu blogue, ainda que lido por poucos, seja só mais um… quero impressionar, impactar, provocar, debater!

Mas aí travam as idéias. Amontoam-se num canto, confundem-se; parecem primárias, pífias; desisto.

Só que, por motivos que não sei – por enquanto – explicar, enxergo um horizonte promissor. Estou caminhando até ele e, prometo, quando chegar lá as descobertas serão boas pra mim e pra todos que passam por aqui! Enquanto isso, mais um belo poema de Álvaro de Campos pra preencher o vazio momentâneo deste espaço… (é longo, rs)

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Grande abraço.

Álvaro de Campos

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria…
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
Talvez, acabando, comeces…
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão…
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada…
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além…
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia…

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
Se queres matar-te, mata-te…
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! …
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo…

PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos

Curva de Rio - Studio 84 - 28/06/2010Uso este espaço pra agradecer as pouco mais de 2 horas de alegria que pessoas que carrego fundo no meu coração proporcionaram a mim, enquanto eu fazia umas das coisas que mais gosto no mundo que é tocar.

Muita coisa aconteceu em 25 anos, boas ou ruins; muita coisa mudou, muita coisa ficou exatamente igual; muitos amigos ficaram distantes, novos surgiram, outros voltaram. E o importante é que amo a todos como amo a mim mesmo – provavelmente mais.

E aos companheiros de banda, não tenho palavras – a cada show, a cada ensaio vocês acendem mais ainda a chama musical dentro de mim que já quis se apagar tempos atrás.

Obrigado a todos, de coração. Fiquem com Deus.

Alê

TwitterE por que não?

O Twitter é, depois das coisas que o deus-Google faz, uma das ferramentas que mais crescem – em tamanho e utilidade – e ganham adeptos mundo afora. Como praticamente tudo que é criado na Internet, surgiu como um aplicativo despretensioso e, porque não dizer, bobo. Aos poucos, com ajuda dos adeptos que não usavam-no para publicar um streaming inútil do seu dia, grande parte da [vou abusar no uso do termo aqui] comunidade da web percebeu que essa ferramenta poderia contribuir imensamente em vários setores e não só era mais uma rede social pra colocar fotos e adicionar miguxos. Abaixo eu tento exemplificar e defener o que estou sugerindo a você, leitor.

Acesso à informação

O Twitter vem pra confirmar uma nova tendência (odeio esse termo) no tocante ao modo como o usuário busca informação na web: eu não me relaciono com nenhum veículo de comunicação, me relaciono com as notícias – e elas vêm até mim (parafraseando o amigo Fernando Gomes, diretor de atendimento da LiveAD). Assim como o RSS, o usuário não precisa mais ficar buscando freneticamente na internet e seus milhares de blogues e portais assuntos que são relevantes pra ele; ele simplesmente assina o RSS de um canal específico e, agora, vai além: segue o cara responsável por aquele assunto. Ex.: se eu quero saber das novidades do Google eu não preciso ficar navegando por 1 milhão de canais de tecnologia – eu simplesmente sigo o Eric Schmidt.

Isso, penso, é uma das coisas mais interessantes do Twitter: o acesso ao pensamento da “fonte”. Cada vez mais CEOs de grande empresas, desenvolvedores, filósofos, educadores, sociólogos, jornalistas etc etc etc, passam a utilizar o microblog como veículo das suas opiniões, novidades de suas empresas, visão de mundo e por aí vai. Isso permite um diálogo (obviamente não em 100% dos casos, rs) inteligente e interessante sobre várias coisas.

E grandes portais demoraram, mas parecem ter percebido as grandes possibilidades de interação que essa ferramenta proporciona. Sites como a Globo.com, por exemplo, convidam os usuários a participarem de transmissões ao vivo veiculadas no Globoesporte.com expressando seus comentários e observações, ao lado das pratas da casa, como Tiago Leifert. Assim, os portais transformam o usuário de espectador em participante (vocês já devem ter ouvido essa expressão e um desses milhões de enventos sobre “as novas tendências da Internet”, certeza, rs…).

Mais: com o uso da web cada vez mais presente nos dispositivos móveis, o acesso à informação fica disponível em praticamente qualquer lugar, a qualquer hora, uma vez que o site é bem mais leve, muito mais fácil e mais rápido de acessar do que um grande portal ou um blogue.

Opiniões

O Twitter também é, mal ou bem, espaço para opiniões, sejam elas relevantes ou não (e este texto não tem por objetivo discutir o que é relevante ou não, ok?). Todo mundo acha algo sobre alguma coisa – isso é um fato. Só que agora essas opiniões podem ser compartilhadas com milhões de leitores. Esse é, talvez, o pior lado do Twitter: você pode descobrir que aquele amigo com quem você simpatiza bastante, mas não tem um contato mais pessoal é, na verdade, um mané que tem visão obtusa da vida e gosta mesmo de ficar repetindo manchete de jornal polêmico.

Só que esse é outro grande trunfo da ferramenta. Bom ou não, qualquer um diz o que bem entende e isso, penso, evidencia ainda mais a capacidade de discernimento de quem está lendo aquilo. Ninguém é obrigado a tomar tudo por verdade absoluta sem confrontar ideologicamente o que está sendo apresentado.

Sugestões

Como não abordar o aspecto que arrisco a dizer é o mais simples do Twitter: sugerir! Um bom restaurante, uma boa leitura, um bom disco. De novo, isso é opção de cada um, mas entendo que é mais fácil ter uma lista de seguidores que sugerem boas coisas do que ficar indo atrás de reviews espalhados por milhares de sites, revistas, jornais específicos de cada ramo.

Finalmente…

O objetivo todo desse meu texto que parece não acabar mais, é que o Twitter é uma das ferramentas mais úteis e interessantes da atualidade. Há inúmeras outras maneiras de utilizá-la e deixo o espaço dos comentários para que você compartilhe comigo quais são (por exemplo: não falei das oportunidades comerciais que o Twitter passou a oferecer de alguns meses pra cá para anunciantes, como os Promoted Tweets)! Se você não conhece, dê uma chance. É claro que você pode achar uma grande porcaria e discordar de tudo isso que eu escrevi aqui, mas se você gostar, aproveita e me segue. ;)

Abraços


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